Hoje eu gostaria de falar de um tema que, de poucos anos para cá, tem estado na mídia de forma mais presente aqui no Brasil, que é o lifelong learning.
Enquanto fazia minha pesquisa para o mestrado, mergulhada em artigos acadêmicos sobre esse assunto (e são muitos artigos), vez ou outra eu esbarrava numa publicação em jornais e revistas. Uma que me chamou a atenção foi no caderno de Carreiras do Estadão de domingo. Uma matéria gigante: “Lifelong Learning: como se tornar um profissional em constante aprendizagem” (https://www.estadao.com.br/infograficos/economia,lifelong-learning-como-se-tornar-um-profissional-em-constante-aprendizagem,1129573 de 30/10/2020).
Na literatura acadêmica, o termo lifelong learning é traduzido para o português como “aprendizagem ao longo da vida”, mas o Estadão adaptou para “educação ou formação continuada”.
Embora aqui a gente tenha começado a falar sobre esse assunto somente nos últimos anos e, na minha opinião, de forma muito rasa e incipiente, causando confusões no entendimento, ele é muito antigo em outros países. Veja o que diz um artigo de 1976 publicado nos Estados Unidos sobre lifelong learning relacionado às empresas:
“A abordagem de “lifelong learning” para o desenvolvimento pessoal nas empresas não é uma panacéia. Em vez disso, é uma nova direção que disponibiliza uma variedade de atividades para os funcionários em todos os níveis da organização (…) ao longo de suas carreiras – atividades que estão alinhadas com os planos de desenvolvimento pessoal criados por funcionários individuais de acordo com seus interesses e necessidades pessoais. A corporação atua mais como um facilitador do desenvolvimento do que como um determinante dos planos de desenvolvimento individuais” (PAXTON, 1976).
Sobre a confusão no entendimento a que me referi, ocorre, por exemplo, em relação à Educação Corporativa. Então, vamos colocar cada coisa na sua caixinha para depois poder compará-las.
O objetivo central da Educação Corporativa é o desenvolvimento das competências empresariais e humanas consideradas críticas para a viabilização da estratégia do negócio. Em outras palavras, “o objetivo principal aqui é desenvolver as competências críticas ao negócio em vez de habilidades individuais” (EBOLI M. 2004, p.49).
Quando o tema deixa de ser Educação Corporativa e passa a ser “lifelong learning”, ou aprendizagem ao longo da vida, o foco passa a ser o ser humano (como pontuou PAXTON, 1976) e não as competências críticas do negócio.
Sentiu a diferença? Vamos em frente.
Essa comparação me levou a pensar nas Competências Chave para Aprendizagem ao Longo da Vida, uma publicação do Conselho da União Europeia, que tem foco intenso sobre o tema a partir dos anos 90. (Key Competences for Lifelong Learning, European Union, 2018, https://op.europa.eu/en/publication-detail/-/publication/297a33c8-a1f3-11e9-9d01-01aa75ed71a1/language-en
Se você tiver interesse em conhecer todas as oito competências é só acessar o link logo acima, te garanto que vale à pena dar uma olhada nesse material. Aqui eu queria falar especificamente de uma das oito que é a competência aprender a aprender.
Aprender a aprender (pessoal e social) é a capacidade de refletir sobre si mesmo, gerenciar eficazmente o tempo e as informações, trabalhar com outras pessoas de maneira construtiva, permanecer resiliente e gerenciar o próprio aprendizado e carreira. Inclui a capacidade de lidar com a incerteza e a complexidade, apoiar o bem-estar físico e emocional, manter a saúde física e mental e ser capaz de levar uma vida consciente e orientada para o futuro, ter empatia e gerenciar conflitos em um contexto inclusivo e solidário.
Como uma coisa leva à outra, segundo Zygmunt Bauman, o pai do conceito da modernidade líquida, cada vez mais a gente precisa “tomar decisões sobre a própria vida, entender como o mundo gira e adquirir as suas próprias habilidades para achar soluções individuais” https://www.youtube.com/watch?v=l1Hflfw-p08
Então, aprender a aprender pode ser (ou deve ser) o caminho viável para o sucesso pessoal e profissional. Mas não se engane, vai exigir cada vez mais uma postura de humildade ao se deparar com o novo e ter que decidir: “deixa eu aprender a aprender isso aqui”, afinal, não dá para falar “no meu tempo….”. O seu tempo é justamente este tempo aqui, um tempo que precisa ser alimentado pelo combustível da aprendizagem, ou se preferir, da aprendizagem ao longo da vida, da vida toda.